Soube desta pedrada no charco através da (minha sempre tão querida) Beijo-de-Mulata quando esta se confessou prestes a perder as estribeiras (palavras minhas). Moça de bom feitio que raramente se zanga, enfureceu-a o artigo
As Crianças não são hiperactivas, são mal-educadas, da autoria de Henrique Raposo. Fui ver. Não era o ovário, mas andou lá perto. Considerações várias atabalhoaram-se em busca de uma clareza que, se chegou, entretanto se dissipou com o cansaço (são quase onze da noite e o João Pestana já me está a piscar o olho). O texto é tão rico em alarvidades que eu nem sei por onde lhe pegar.
A começar por algum lado, confesso que me incomodou o tom superficial e quase jocoso com que tratou a questão da hiperactividade, um problema que atormenta crianças, pais, e educadores e para o qual não há, infelizmente, "umas gotinhas de medicamento", antes as houvesse. {Eu tenho a sorte (Deus ma conserve) de não privar de perto com o problema, mas não há um texto do
Jorge sobre os desafios que lhe apareceram no prato que não me deixe com um nó na garganta. Normalmente não comento, ele não precisa das minhas pancadinhas de "there, there" nas costas, mas há sempre vários comentários na caixa, em geral de pais nas mesmíssimas condições que sentem ali o amparo de não se saberem sozinhos. As queixas que têm da incapacidade de os professores orientarem melhor os seus meninos deixa-me sempre siderada.}
A par de muita falta de tacto e confusão, mas ó pá o Henrique é jornalista e não é médico e, parece-me, nem pai, ou se o é é de criança ainda a cheirar a novo, o moço teve o azar de ter uma saída infeliz publicada num sítio que muita gente lê. O que eu acho que ele queria dizer é que os putos são umas pestes e que bom bom seria gozar uma manhã no café sem a sua presença. Se era isto, ah grande Henrique! Eu até ando sempre a dizer a Monsieur Bolacha para irmos de férias para aqueles
resorts que não admitem miúdos, detesto gritaria e os putos são uma chatice. Quase me atrevo a dizer que o melhor seria fechá-los numas cabaninhas tipo estufa e só os deixar sair quando tiverem, no mínimo, crescido da idade do armário que, cheira-me, é pior que a das birras.
Ultrapassada a questão do tiro no pé que foi o uso da hiperactividade como desculpa para o mau comportamento dos petizes, deixai-me dizer-vos que também eu já fui assim como o Henrique e que fui defensora dos castigos e da mão dura para com os maus comportamentos (seja lá o que isso for). Até que eu própria procriei e deixei de dizer "aqueles pais" para passar a dizer "os nossos filhos". Pude então aprender uma das primeiras e quiçá mais importantes lições que os filhos ensinam aos pais e que é que tudo aquilo que os ainda-não-pais atiram para o ar, sejam críticas mais ou menos veladas, sejam juras do tipo "eu nunca" ou "eu sempre", lhes cai em cima tipo bigorna de 500 toneladas. Tirei um curso nisto e a minha filha vai fazendo
workshops regulares (diários?) de modo a que eu o mantenha bem presente.
Se a memória e experiência não me falham, o ruído feito pelas pestinhas é das primeiras coisas que um ainda-não-pai critica (agora notai o detalhe) na pequenada
e na sua ascendência. Pois, porque se a criança grita e esbraceja e se atira para o chão e faz cair o Carmo e a Trindade a culpa, que não morre solteira, recai na sua totalidade sobre a malta que, dando-lhe o pão, (obviamente) não lhe dá a educação. Aqui até dou uma abébia ao Henrique e concedo que tal pode acontecer, pais há que não têm consideração nenhuma pelos demais e ignoram as criancinhas e os seus
faux-pas sociais. Mas estes, acredito, estão em minoria. A maioria será, talvez, quiçá, porventura, constituída por malta que, querendo arejar as tranças, não tem mesmo outro remédio do que levar a descendência atrelada ou então, pasme-se, tem prazer na sua companhia. Outro grupo pretende socializar os bichinhos, que se querem futuros membros interessantes da sociedade e, como tal, devem aprender a comportar-se nela e com ela, uma espécie de
immersion training.
O artigo do Henrique (ignorando a parte da estupidez da hiperactividade) fez-me lembrar-me de mim há uns anos, quando era uma gaja magra e gira e nova e ainda não tinha filhos. Agora, que sou menos magra, igualmente gira, e um bocadito menos nova, ainda me permito dizer que os putos são uns chatos e gritam muito alto e que é muito bom poder estar a um canto sossegada a
enjoy the silence. E que é ainda melhor voltar para casa e fazer os meus próprios meninos rir histericamente de tantas cócegas. Mas sem incomodar os vizinhos. Claro.