Foi assim que, há alguns (vários, cinco?) anos, a C. começou uma frase que me acompanha desde então, rematando-a com "e não quando nós queremos". O tempo encarregou-se de me revelar a sabedoria, paciência, e amor que estão contidos nestas palavras.
Ontem, ou era "ontem" quando comecei a escrever este texto, mas acho que já lá vão uns dias, lembrei-me desta frase quando soube da chegada do baby-de-mulata, que ousarei acarinhar e em concordância com este sentir apelidar de meu sobrinho blogosférico (sortudo, é rico em tias em lugares exóticos). A blogosfera é caricata nestas coisas, e gera afectos entre gentes cujos percursos físicos nunca se cruzaram (quem sabe um dia? -- já me aconteceu e a realidade foi uma paixão assolapada, ou quatro, desta que tanto vos estima). Acompanhei com ternura a chegada da manguinha da Inês e a chegada da baby-bear e agora é com expectativa que leio os posts da Filipa à espera de novidades sobre o seu (que já é um bocadinho meu também) rapaz (nem quero pensar quando for a vez da Mariana, só me vai faltar andar aos pinchos -- talvez ande mesmo, que isso do comer e do pinchar tudo vai do começar). Mas divago.
Os bebés vêm quando eles querem e o baby-de-mulata deu um ar da sua graça (consta que tem um ar meio gozão) quando lhe aprouve, não importa as circunstâncias da vida da moça. À minha querida Beijo-de-Mulata sorriu-lhe o filho, e assim lhe disse que finalmente se tinham encontrado. Sentado na sala das enfermeiras, reconheceu-a primeiro e, olhando-a nos olhos, deixou que percebesse que a tinha escolhido. Ele não era o menino que ela tinha imaginado, não era, como ela própria escreve, um menino africano. Sendo um menino que mais ninguém queria, era lourinho, simpático. Quando ele decidiu, o milagre aconteceu, e aquele sorriso foi o início do amor à primeira vista de que a rapariga do mato nos veio falar. Sempre tão ciosa da sua intimidade, foi vencida pela imensa ternura que invade o coração de uma mãe. Foi-se o recato, foi-se a discrição, foi-se a relutância em falar de si. Como todas as mães, não conseguiu conter o seu entusiasmo. Tal como eu não consegui conter o meu com a chegada do biscuit, coisa que até redundou em foto do petiz publicada aqui no blog (se Monsieur Bolacha sabe divorcia-se-me no momento).
Esta escolha, que os filhos fazem e à qual nós nos subjugamos em absoluto, fez-me também lembrar de um episódio que vivi no pós parto, na solidão do quarto de hospital, ia já alta a noite. Como não fiz qualquer menção de esconder, saber que ia ter um filho, um menino, foi uma desilusão para mim. Eu queria uma menina, eu queria outra menina, e não me via mãe de um menino. As pilitas são feias, os testículos são feios, os meninos são piratas e cowboys, são buliçosos, as roupas (aqui) são feias e não há muita escolha... tudo razões absurdas mas perfeitamente válidas para quem as chama de suas.
Ora quando o meu filho nasceu, eu não tive uma descarga emocional como a que tive com a minha filha. Quando ela começou a chorar nos meus braços também eu chorei e ri ao mesmo tempo, numa ternura desenfreada. Com o Max não. Foi como pegar num desconhecido, feioso, enrugado, sujito. Não houve um clique. Vi-o ser levado para ser examinado e segui tudo atentamente. Mas de fora, como se não estivesse a acontecer com o meu menino. Isso veio mais tarde, na solidão do quarto de hospital, ia já alta a noite. Sozinhos, sem buliço, o meu filho escolheu-me. Não sorriu, naturalmente, tinha horas, mas sei que naquele momento me disse que era tão meu quanto eu era dele. E foi assim que veio o meu menino, quando ele quis. E na solidão e paz do quarto de hospital, ia já alta a noite, eu cedi e apaixonei-me. E dei por mim a cantar-lhe Jobim (e Vinicius):
E ele, o Max, o meu filho, gostou.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Os bebés vêm quando eles querem
Desempacotado por
Maria Bê
às
19:14
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segunda-feira, 19 de março de 2012
Tanto tempo desaparecida e voltas para falar de gulodices?
E há lá melhor assunto?!
Miss ocupated, tão ocupated... os gajos do departamento escravizam-me!
Se me conhecesses saberíeis que digo isto com tom jocoso e acompanhado de um ar de gozo, não o digo maldosamente.
Digo-o, contudo, e apercebi-me disso a semana passada, com uma pontinha (um novelo inteiro) de arrependimento por ter voltado. Também por aquilo que o departamento me está a fazer (ou que eu deixei que me fizesse, coisa talvez pior, pois que aguentar com a frustração por não me ter defendido melhor, por ter deixado que me pisoteassem e se aproveitassem da minha boa vontade deixa-me ainda mais frustrada). E fundamentalmente, por o meu patrão me ter cortado os tais 22.453% de ordenado anual.
Mas voltando ao que me dói na alma...
Não é trabalhar muito, por favor não me interpretais mal, coisa que até gosto bastante de fazer. Aliás, foi fonte de grande satisfação constatar que ainda consigo, que ainda sou capaz, capacidade de que, dois anos integrais dedicados à maternidade volvidos, duvidei com todas as minhas forças. Como me angustiei a este propósito...
O que me faz doer o coração é ter visto a distribuição de serviço docente e ter constatado que, a seguir a um colega absolutamente fantástico e com uma produtividade que vale por pelo menos quatro excelentes profissionais -- ainda por cima um gajo porreiríssimo! -- sou a que tenho mais horas de serviço. De todo o departamento. Tenho cinco disciplinas ao todo, todas diferentes, e três delas novas. Trabalho que nem uma brutinha, sou eu e a produção de bolos em série do Continente (Zitinha, eu juro que não provei, mas até têm bom aspecto...).
Os que estão mais por dentro do assunto poderão lembrar que estou a acumular serviço docente, que não estive cá no primeiro semestre. A esses respondo que, em primeiro lugar, não estar cá não significa que não tenha trabalhado, afinal os três papers que estão na secretária do Barry à espera que os leia/corrija/melhore não se escreveram sozinhos, e nem os textos de apoio que escrevi para uma cadeira caíram do céu, antes fosse. Em segundo lugar, não sou caso único, outros houve a acumularem o serviço. Outro argumento, esse já válido, é que havia débitos (dívidas de horas lectivas) e que havia de pagar. Respondo agora que sim, infelizmente tinha débitos, como tantos outros colegas, mas o que não havia necessidade era de agora ter créditos (horas a haver).
Outra coisa que irrita até ao tutano é que o ECDU, o tal do estatuto da carreira docente universitária (chiiiique!), diz que as horas leccionadas depois das 20:00 valem por hora e meia. Viste-las!? Nem eu, dizem-me que o "departamento não faz" (que se lixe a lei). E ensino cinco destas. Fazei contas...
Fora estas questiúnculas há outras coisas que me estão a doer. São cinco. Cinco dias por semana que estou longe da minha filha, da minha boneca. Vou para a universidade à Segunda ao fim da tarde e só chego na Sexta à quase uma da manhã (tenho ensinado até às onze da noite). Vale-me mamãe, que é melhor avó e mãe do que eu conseguiria ser. Abençoada seja madame e sua ternura para com nossa menina.
Bolas, chega de queixas. Vou mas é trabalhar que amanhã dou aulas até às dez e meia (da noite) e alguém tem de as preparar...
I'll be back! Jeito Terminator para dar mais pedal...
P.S. Não aceito boas e devidamente justificadas defesas para o comportamento do departamento. Só quero comentários que me amaciem o pêlo e digam que estou repleta de razão. Estamos entendidos? Merci!
Miss ocupated, tão ocupated... os gajos do departamento escravizam-me!
Se me conhecesses saberíeis que digo isto com tom jocoso e acompanhado de um ar de gozo, não o digo maldosamente.
Digo-o, contudo, e apercebi-me disso a semana passada, com uma pontinha (um novelo inteiro) de arrependimento por ter voltado. Também por aquilo que o departamento me está a fazer (ou que eu deixei que me fizesse, coisa talvez pior, pois que aguentar com a frustração por não me ter defendido melhor, por ter deixado que me pisoteassem e se aproveitassem da minha boa vontade deixa-me ainda mais frustrada). E fundamentalmente, por o meu patrão me ter cortado os tais 22.453% de ordenado anual.
Mas voltando ao que me dói na alma...
Não é trabalhar muito, por favor não me interpretais mal, coisa que até gosto bastante de fazer. Aliás, foi fonte de grande satisfação constatar que ainda consigo, que ainda sou capaz, capacidade de que, dois anos integrais dedicados à maternidade volvidos, duvidei com todas as minhas forças. Como me angustiei a este propósito...
O que me faz doer o coração é ter visto a distribuição de serviço docente e ter constatado que, a seguir a um colega absolutamente fantástico e com uma produtividade que vale por pelo menos quatro excelentes profissionais -- ainda por cima um gajo porreiríssimo! -- sou a que tenho mais horas de serviço. De todo o departamento. Tenho cinco disciplinas ao todo, todas diferentes, e três delas novas. Trabalho que nem uma brutinha, sou eu e a produção de bolos em série do Continente (Zitinha, eu juro que não provei, mas até têm bom aspecto...).
Os que estão mais por dentro do assunto poderão lembrar que estou a acumular serviço docente, que não estive cá no primeiro semestre. A esses respondo que, em primeiro lugar, não estar cá não significa que não tenha trabalhado, afinal os três papers que estão na secretária do Barry à espera que os leia/corrija/melhore não se escreveram sozinhos, e nem os textos de apoio que escrevi para uma cadeira caíram do céu, antes fosse. Em segundo lugar, não sou caso único, outros houve a acumularem o serviço. Outro argumento, esse já válido, é que havia débitos (dívidas de horas lectivas) e que havia de pagar. Respondo agora que sim, infelizmente tinha débitos, como tantos outros colegas, mas o que não havia necessidade era de agora ter créditos (horas a haver).
Outra coisa que irrita até ao tutano é que o ECDU, o tal do estatuto da carreira docente universitária (chiiiique!), diz que as horas leccionadas depois das 20:00 valem por hora e meia. Viste-las!? Nem eu, dizem-me que o "departamento não faz" (que se lixe a lei). E ensino cinco destas. Fazei contas...
Fora estas questiúnculas há outras coisas que me estão a doer. São cinco. Cinco dias por semana que estou longe da minha filha, da minha boneca. Vou para a universidade à Segunda ao fim da tarde e só chego na Sexta à quase uma da manhã (tenho ensinado até às onze da noite). Vale-me mamãe, que é melhor avó e mãe do que eu conseguiria ser. Abençoada seja madame e sua ternura para com nossa menina.
Bolas, chega de queixas. Vou mas é trabalhar que amanhã dou aulas até às dez e meia (da noite) e alguém tem de as preparar...
I'll be back! Jeito Terminator para dar mais pedal...
P.S. Não aceito boas e devidamente justificadas defesas para o comportamento do departamento. Só quero comentários que me amaciem o pêlo e digam que estou repleta de razão. Estamos entendidos? Merci!
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Maria Bê
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Sinal de que sou uma mãe como todas as mães, #3
Ou pelo menos como a Rititi, que escreveu mais uma pérola que eu li a anuir, depois anuí mais um bocadinho, e enquanto escrevo e os dez dedos (se fosse nos EUA eram oito dedos e dois polegares, eight fingers and two thumbs, e já agora, sem querer insultar os conhecimentos de V. Exas. sobre a língua da Sua Majestade a Rainha, aquela que os serranos daqui de perto teimam em querer ver depilada com a gillette, os dedos dos pés não são fingers, são toes) continuo a anuir. E a sorrir, claro. Ah, Rititi, como eu gosto das coisas que tu escreves e como as escreves, caralho (de certeza que não és do Norte?).
Pedindo desde já desculpa pela falta de originalidade ao pedir-vos que leiam as palavras desta artista, repito as de outra, menos rosa cueca mas mais verde sapo, logo igualmente colorida, a minha Jonas das Nozes, que me desculpará o exagero amimalhado deste possessivo mas eu hoje acordei assim, toda coração, fazer o quê, mas indo ao cerne da questão pois que se faz tarde... "[e]u também nunca fui tão boa mãe como fui antes de ter parido". Ora!
Pedindo desde já desculpa pela falta de originalidade ao pedir-vos que leiam as palavras desta artista, repito as de outra, menos rosa cueca mas mais verde sapo, logo igualmente colorida, a minha Jonas das Nozes, que me desculpará o exagero amimalhado deste possessivo mas eu hoje acordei assim, toda coração, fazer o quê, mas indo ao cerne da questão pois que se faz tarde... "[e]u também nunca fui tão boa mãe como fui antes de ter parido". Ora!
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Maria Bê
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15:04
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terça-feira, 16 de agosto de 2011
Sinal de que sou uma mãe como todas as mães, #2
Pensava eu antes de ter filha: "A minha filha, comer açúcar, açúcar!?!?!?! Jamais!!!!! Doidos!" (com a condizente sobranceria de quem sabe, de certezinha absoluta, que fará melhor).
Ontem, enquanto a observava, feliz, a lamber o dedo rechonchudo e a passá-lo pelo açúcar em pó deixado na travessa pela meia dúzia de sete farturas, aqui e ali pontilhado pela canela cujo cheirinho perfumava ainda o ar, e novamente a lambê-lo, pensava: "Ah, tão linda" (com a condizente cara embevecida).
Ontem, enquanto a observava, feliz, a lamber o dedo rechonchudo e a passá-lo pelo açúcar em pó deixado na travessa pela meia dúzia de sete farturas, aqui e ali pontilhado pela canela cujo cheirinho perfumava ainda o ar, e novamente a lambê-lo, pensava: "Ah, tão linda" (com a condizente cara embevecida).
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Maria Bê
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06:30
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quarta-feira, 15 de junho de 2011
Sinal de que sou uma mãe como todas as mães
Olho para fotografias de bebés nos catálogos e penso que dessa idade a minha cria era muito mais bonita.
Desempacotado por
Maria Bê
às
11:00
3
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