Quando se promete, deve cumprir-se. Tão simples.
Portugal é o país do "aqui faz-se assim". Todos sabemos que as pessoas levam tempo para almoçar, que nunca ninguém chega a horas, que prazos são "em princípio" para se cumprir, mas pode haver ali um atraso de uns dias (semanas?). É da proximidade do mar, do sol, do caraças. É cultural, é social, é... incompetência!
Os recursos são desperdiçados quando não se cumpre o acordado. Quem espera desespera. E arrepende-se de ter ido ali.
De nada.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014
Eu não tenho a solução para os problemas de Portugal, mas tenho uma sugestão
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Espera, eu estou quase ketch(ing)up
Estou a preparar uma aula sobre crescimento e farto-me de ver o termo catch-up (as economias de países em desenvolvimento devem crescer a um ritmo mais rápido para apanhar as economias dos países desenvolvidos). Até aqui tudo bem, mas só me ocorre escrever ketchup. Todas as vezes. Todas.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012
O poder de um nome
Sobre os nomes, e o poder dos ditos, dois economistas americanos, Steven Levitt e Stephen Dubner, propuseram-se a estudar o impacto do exotismo dos nomes no sucesso de um conjunto de indivíduos. Talvez já tenhais ouvido falar nisto, o tema consta de um livro muito pop chamado Freakonomics.
Usando a informação de registos de nascimento de crianças nascidas na Califórnia desde 1961, qualquer coisa como mais de 16 milhões de observações, os economistas concluíram que há uma disparidade muito grande no modo como os pais negros e os pais brancos nomeiam os seus filhos. Para a comunidade negra, é importante a distinção, é importante ser diferente. Não só no nome, mas às vezes até na sua grafia. Por exemplo, durante a década de 90, o nome Unique foi usado 228 vezes, cada versão Uneek, Uneque, e Uneqqee uma única vez, e virtualmente todos usados por negros. Actualmente, mais de 40% das meninas negras nascidas na Califórnia num dado ano têm um nome que nenhuma das 100 000 meninas brancas tem. Mais! A cerca de 30% das meninas negras é dado um nome único entre as bebés, brancas e negras, nascidas nesse ano na Califórnia.
Mas a unicidade vem a um preço. E o que os economistas estudaram foi a relação entre a prosperidade dos indivíduos e o seu nome. Entre as variáveis incluídas no estudo constavam o nome, género, raça, peso ao nascer, e o estado civil dos pais, mas também o código postal (que revela o estatuto sócio-económico dos progenitores e a composição racial do bairro), o meio de pagar a conta do hospital (outro indicador sócio-económico), e nível de educação dos pais.
A conclusão não espanta ninguém. Nomes mais... exóticos, chamemos-lhe assim, estão associados a menor prosperidade profissional. Será a responsabilidade do nome? Não, claro que não. À partida, uma Brayona, uma Chineka, uma Tamicka, ou uma Vashanique (ver uma lista fantástica aqui) tem tantas hipóteses de ser bem sucedida como uma Abigail, uma Heather, ou uma Savannah.
O busílis da questão reside mais nas características de quem escolhe o nome do que na própria criança. Caindo no estereótipo, uns pais negros de baixo nível sócio-económico e cultural, tenderão a escolher um nome mais guetto. Esses mesmos pais lerão menos livros, farão menos puzzles, e genericamente interessar-se-ão menos pela educação das suas crias do que uns pais brancos, de elevado nível sócio-económico e cultural, que levam as crias a museus e as tornam pessoas mais interessadas no mundo que as rodeia (e interessantes). É este o fenómeno que o estudo capta. Mas não deixa de ser giro.
Usando a informação de registos de nascimento de crianças nascidas na Califórnia desde 1961, qualquer coisa como mais de 16 milhões de observações, os economistas concluíram que há uma disparidade muito grande no modo como os pais negros e os pais brancos nomeiam os seus filhos. Para a comunidade negra, é importante a distinção, é importante ser diferente. Não só no nome, mas às vezes até na sua grafia. Por exemplo, durante a década de 90, o nome Unique foi usado 228 vezes, cada versão Uneek, Uneque, e Uneqqee uma única vez, e virtualmente todos usados por negros. Actualmente, mais de 40% das meninas negras nascidas na Califórnia num dado ano têm um nome que nenhuma das 100 000 meninas brancas tem. Mais! A cerca de 30% das meninas negras é dado um nome único entre as bebés, brancas e negras, nascidas nesse ano na Califórnia.
Mas a unicidade vem a um preço. E o que os economistas estudaram foi a relação entre a prosperidade dos indivíduos e o seu nome. Entre as variáveis incluídas no estudo constavam o nome, género, raça, peso ao nascer, e o estado civil dos pais, mas também o código postal (que revela o estatuto sócio-económico dos progenitores e a composição racial do bairro), o meio de pagar a conta do hospital (outro indicador sócio-económico), e nível de educação dos pais.
A conclusão não espanta ninguém. Nomes mais... exóticos, chamemos-lhe assim, estão associados a menor prosperidade profissional. Será a responsabilidade do nome? Não, claro que não. À partida, uma Brayona, uma Chineka, uma Tamicka, ou uma Vashanique (ver uma lista fantástica aqui) tem tantas hipóteses de ser bem sucedida como uma Abigail, uma Heather, ou uma Savannah.
O busílis da questão reside mais nas características de quem escolhe o nome do que na própria criança. Caindo no estereótipo, uns pais negros de baixo nível sócio-económico e cultural, tenderão a escolher um nome mais guetto. Esses mesmos pais lerão menos livros, farão menos puzzles, e genericamente interessar-se-ão menos pela educação das suas crias do que uns pais brancos, de elevado nível sócio-económico e cultural, que levam as crias a museus e as tornam pessoas mais interessadas no mundo que as rodeia (e interessantes). É este o fenómeno que o estudo capta. Mas não deixa de ser giro.
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sábado, 7 de julho de 2012
"Azeiteiro"! "Azeiteiro é você!"
Quando andava na licenciatura, tive uma disciplina que me fascinou como nenhuma outra: Comércio Internacional. Diz a minha amiga N., colega de Economia da Saúde, que é fácil a paixão por qualquer uma destas áreas. Talvez isto seja válido para todas as áreas em geral, afinal eu deliro com os temas de Economia Ambiental do Mr. Bolacha e acho interessantíssimos os estudos que o M. publica sobre o mercado de trabalho (C., também adoraria os teus artigos se conseguisse perceber pelo menos 1% do que escreves).
Quanto ao comércio propriamente dito, a minha paixão começou com o conceito de que Paul Samuelson, prémio Nobel da Econcomia em 1969, se lembrou como resposta ao desafio do matemático russo Stanislaw Ulam de lhe apresentar uma "proposition in all of the social sciences which is both true and non-trivial." Conta Samuelson que só anos mais tarde se lembrou da resposta correcta: o conceito de vantagem comparativa, dizendo "That it is logically true need not be argued before a mathematician; that is is not trivial is attested by the thousands of important and intelligent men who have never been able to grasp the doctrine for themselves or to believe it after it was explained to them."
E foi assim que todo um mundo se abriu diante de mim. A especialização dos indivíduos naquilo que fazem melhor e troca com os outros indivíduos que também se especializam naquilo que fazem melhor leva a uma melhor (mais eficiente) afectação de recursos e por conseguinte a ganhos para todos (ainda que não necessariamente igualmente distribuídos, coisa que comicha a muita gente). Lembro-me, a este propósito, da argumentação hilariante que o LAC me apresentou sobre a cargo de quem deveriam ficar as tarefas domésticas uma vez que as mulheres estavam melhor treinadas/adaptadas/whatever, eram melhores na sua execução. "Vai-te lixar" foi a única resposta possível (ou uma qualquer sua variante, quiçá mais peluda, não fora eu gaja do Norte com tendência para a boca suja).
Mais tarde e mais adiante na disciplina, aprendi que apesar dos argumentos liberais, países há que escolhem desvirtuar os fluxos de comércio através de barreiras. Há-as para todos os gostos e feitios, das mais às menos visíveis. Entre estas últimas, genericamente classificadas como "Barreiras Não Tarifárias", estão mecanismos que afectam o fluxo de comércio mas como se fosse quase "sem querer", uma vez que o objectivo da barreira é outro, o de proteger a saúde do consumidor, o combate à fraude, etc, sucedem-se as justificações.
Li há pouco, no dinheirovivo.pt, que o Brasil e Portugal assinaram um memorando de entendimento que elimina a exigência de testes de controlo do azeite português à entrada do Brasil. Estes controlos, que já são efectuados em Portugal antes da exportação, e que visavam garantir a qualidade do azeite, serviriam como entrave à entrada do produto, aumentando a burocracia e demorando as exportações. Esta seria, do ponto de vista dos exportadores, uma "agenda escondida com o rabo de fora: mais uma prova do proteccionismo industrial brasileiro". Naturalmente, se o preço do azeite português aumentasse, os consumidores brasileiros iriam preteri-lo em favor de outras marcas, quiçá nacionais. You gotta love trade, é sempre a conclusão a que chego.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012
Até tu pingas, Maria?
E pingo para vos trazer um texto do Pedro Pita Barros, um economista da Universidade Nova de Lisboa (e que também por isso sabe o que diz) que, para além de explicar muito bem por que é que é altamente improvável que o Pingo doce tenha dumpado (a malta agora tornou-se toda éxpérte em dumping), ainda nos conta a sua própria saga aquando da visita ao supermercado perto de casa (da dele, que da minha num há).
Porém, antes de exibir o texto do Pedro e com isso aumentar consideravelmente a qualidade deste post (e do blog em geral), deixai-me dar os meus cinco tostões para esta coisa do evil-eyed-dumping-monster (ver bichinho acima).
Dumping é, aprendi há uma catrefada de anos, uma estratégia de preços, que consistir em vender a um preço mais baixo. Mais baixo do que o quê perguntais vocês imediatamente, leitores inteligentíssimos e de rápidos processos mentais (lóviú!, xiiiiiiiii).
Bom, peroro eu, que perorar que é perorar começa com uma interjeição que não leva a lado nenhum, ainda antes de dizer quão baixo é "baixo", deixai-me dizer que dumping é um bicho mau, muito peludo e verde, e a cheirar mal dos pés no caso de se tratar de dumping predatório, que tem como objectivo último a eliminação da concorrência e a consequente obtenção de uma posição dominante, e neste caso o"mais baixo" pode chegar a ser inferior ao custo (by the way, já que estou armada em sabichona adianto que odeio a expressão "preço de custo", uma coisa é o preço, que é determinado no mercado em situação concorrencial, e outra é o custo, que se obtém a partir de uma função própria, mas adiante).
O dumping em si, que pode ocorrer por uma miríade de razões (e através de vários instrumentos, nomeadamente o desrespeito pelas condições de trabalho e utilização de mão-de-obra infantil, a que se chama dumping social), não tem nada de mal e de vez em quando venha ele.
Portantos, deixai-me então vincar bem que o dumping predatório, muito bom para os consumidores no curto prazo (iei, preços mais baixos!) todavia péssimo no longo-prazo, esse sim, deve ser proibido, agora esta estratégia do Pingo... até me parece benzinha. Talvez apele à minha costela pé-rapado, pobretona, sei lá. Só sei que fico feliz que a malta que a isso se dispôs de lá tenha saído com os cestos cheios do que fará a sua felicidade, seja ela feita de bacalhau, massa, arroz, ou vodka (quem sou eu, bolacheira de primeira, coisa que poucos entendem, para questionar os prazeres dos outros). E mais, há ainda que valorizar o gáudio de ter abastecido toda uma prateleira, o que até agora ainda não apanhei ninguém a mencionar (até porque medir, humpf, isso é que não, isso é que não).
O texto do Pedro, então, cuja leitura recomendo, recomendo, recomendo! e do qual destaco os seguintes parágrafos:
Mas vamos à substância, e ainda no campo legal – vender com prejuízo é apenas um problema a ser tratado em sede de defesa da concorrência se preencher diversos critérios:
a) a empresa em causa tem que ter posição dominante num mercado relevante (por isto, entende-se que nos diversos mercados de actuação da empresa, tem que possuir peso suficiente para se poder comportar de forma relativamente livre da concorrência que defronta)
b) o espirito de sancionar venda abaixo de custo é impedir a sua utilização como instrumento predatório – isto é, só é um problema se fizer parte de uma estratégia prolongada de forçar concorrentes a sair do mercado, para depois poder explorar a sua posição dominante através de preços mais elevados no futuro (daí a importância do ponto anterior)
c) para além de objectivos predatórios sobre a concorrência, se alterar a dinâmica concorrencial dos mercados, poderá ser também prejudicial aos consumidores e à economia e dever ser penalizada (por exemplo, e sendo ainda mais técnico, se esta venda com prejuízo corresponder a uma “punição” de concorrentes por se terem “ameaçado” entrar numa guerra de preços – seria um aviso para que não sejam muito agressivos, ou então…)
No fundo, o teste final é saber se os consumidores sairão prejudicados, num prazo de tempo razoável, por esta promoção, para avaliar se tem efeitos anti-concorrenciais que justifiquem uma intervenção das autoridades económicas.
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Maria Bê
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Economismos
quinta-feira, 22 de março de 2012
Sabes que és casada com um nerd quando...
Recebes, logo pela manhã, um email dizendo "You might be interested to know that, statistically, we are now less likely to get divorced." Isto porque, de acordo com Gordon Dahl e Enrico Moretti no seu artigo de 2008, The Demand for Sons:
O meu gajo não existe.
Do parents have preferences over the gender of their children, and if so, does this have negative consequences for daughters versus sons? In this paper, we show that child gender affects the marital status, family structure, and fertility of a significant number of American families. Overall, a first-born daughter is significantly less likely to be living with her father compared to a first-born son. Three factors are important in explaining this gap. First, women with first-born daughters are less likely to marry. Strikingly, we also find evidence that the gender of a child in utero affects shotgun marriages. Among women who have taken an ultrasound test during pregnancy, mothers who have a girl are less likely to be married at delivery than those who have a boy. Second, parents who have first-born girls are significantly more likely to be divorced. Third, after a divorce, fathers are much more likely to obtain custody of sons compared to daughters. These three factors have serious negative income and educational consequences for affected children. What explains these findings? In the last part of the paper, we turn to the relationship between child gender and fertility to help sort out parental gender bias from competing explanations for our findings. We show that the number of children is significantly higher in families with a first-born girl. Our estimates indicate that first-born daughters caused approximately 5500 more births per year, for a total of 220,000 more births over the past 40 years. Taken individually, each piece of empirical evidence is not sufficient to establish the existence of parental gender bias. But taken together, the weight of the evidence supports the notion that parents in the U.S. favour boys over girls.
O meu gajo não existe.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Uma questão de expectativas, hoje faz sol (o que, a bem dizer, não é novidade nenhuma)
Maria, ocupada até às orelhas na preparação das suas aulas de macroeconomia, persiste na sua tentativa de vos ensinar qualquer coisinha de economia.
Desta feita, e uma vez que estou a escrever um capítulo sobre a génese da macroeconomia (zzzzzzz zzzzzzzzz), trago-vos um ensinamento p'rá vida (ainda por cima tem a mania).
E vem isto a propósito do conceito de expectativas racionais, cunhado por Robert Lucas na década de 70. Lucas, talvez Bob para os amigos (raio de nome para se chamar ao vencedor do Prémio Nobel da Economia de 1995), estendeu o conceito de racionalidade dos agentes vulgarmente usado na microeconomia e adaptou-o à macroeconomia sob a forma de expectativas racionais, segundo o qual as pessoas eventualmente se apercebem do modelo económico usado pelo governo e portanto antecipam as suas medidas. Se, por exemplo, o governo resolver aumentar a oferta de moeda para reduzir o desemprego, esta medida só funciona se o aumento for superior ao esperado ou completamente inesperado. Só os choques monetários inesperados ou a sua componente inesperada podem ter efeitos reais (sobre o emprego, produto, coisas assim que não tenham a ver com preços).
Mas isto seria apenas blá blá económico (interessantíssimo, apesar de tudo), não fosse a lição de vida que aqui vos trago.
Ora!
Desta feita, e uma vez que estou a escrever um capítulo sobre a génese da macroeconomia (zzzzzzz zzzzzzzzz), trago-vos um ensinamento p'rá vida (ainda por cima tem a mania).
E vem isto a propósito do conceito de expectativas racionais, cunhado por Robert Lucas na década de 70. Lucas, talvez Bob para os amigos (raio de nome para se chamar ao vencedor do Prémio Nobel da Economia de 1995), estendeu o conceito de racionalidade dos agentes vulgarmente usado na microeconomia e adaptou-o à macroeconomia sob a forma de expectativas racionais, segundo o qual as pessoas eventualmente se apercebem do modelo económico usado pelo governo e portanto antecipam as suas medidas. Se, por exemplo, o governo resolver aumentar a oferta de moeda para reduzir o desemprego, esta medida só funciona se o aumento for superior ao esperado ou completamente inesperado. Só os choques monetários inesperados ou a sua componente inesperada podem ter efeitos reais (sobre o emprego, produto, coisas assim que não tenham a ver com preços).
Mas isto seria apenas blá blá económico (interessantíssimo, apesar de tudo), não fosse a lição de vida que aqui vos trago.
Quando, em 1988, Lucas se divorciou da sua mulher, ela incluiu nos termos do divórcio uma cláusula que estabelecia que 50% dos ganhos que ele recebesse com a atribuição do Prémio Nobel seriam dela, cláusula essa que expirava a 31 de Outubro de 1995. Lucas ganhou o prémio a 10 de Outubro desse ano. Uma piada entre os economistas é que a ex-mulher do Lucas, Rita, tinha expectativas racionais.Estais atentos?E agora?
Ora!
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domingo, 8 de janeiro de 2012
O trabalho doméstico e o PIB
Sim, amigos, a economia está mesmo por cá em full force, que é como quem diz em potência.
A culpa não é minha, afianço-vos, juro-vos! A culpa é destas aulas que ando a preparar (talvez a expressão "com as quais ando a obcecar" seja mais apropriada).
Então hoje, mamãe e Maria conversavam sobre o muito trabalho doméstico que mamãe tem feito de maneira a que esta vos saúda se possa vestir de workaholic, roupagem que, vá-se lá saber por obra de que economista abençoado ou homenageado ou doutorado honoris causa, ainda serve, e assim preparar o material de apoio que distribuirá aos seus pupilos.
E a conversa versou, alturas tantas, sobre a contribuição de cada uma de nós para o PIB, que quer dizer Produto Interno Bruto. Produto quem, perguntais já a pensar se é desta que desistis de cá vir malbaratar vosso tempo, ou se não tanto desistir da minha companhia, pelo menos se é de parar já por aqui que o texto parece vir ratado e por isso xô!
Amigos, tende calma que eu vou com jeitinho.
O PIB é, tão simplesmente,
E podia agora ficar a explicar as implicações de cada expressão nos parágrafos acima, desde isso do "valor de mercado", passando pelo "produzidos" e pelo "finais" até chegar à parte do "período" mas, porque vos estimo, é passar à frente.
E pronto, mamãe dizia-me da sua produção durante o dia (pelo menos o jantar foi um absolutamente delicioso arroz branco com lulas) e que tinha contribuído muito para o PIB. Indirectamente, talvez, ao deixar-me trabalhar, expliquei.
É que o trabalho doméstico, a bem dizer qualquer trabalho efectuado para autoconsumo, como o cozinhar, limpar, ou tomar conta das crianças ou dos idosos não é considerado pelo PIB. Essencialmente por razões de ordem prática, afinal como medir -- entenda-se avaliar -- o trabalho de alguém na sua casa? Por exemplo, como avaliar o valor da refeição preparada por uma mãe CEO com salário milionário a cozinhar para o filho? Será que este valor difere do valor da refeição preparada por uma mãe que recebe o salário mínimo; e se o pai ajudar a descascar as batatas enquanto toma conta de um filho e ajuda o outro nos trabalhos de casa, como se divide o tempo entre as tarefas?
Mamãe não gostou da observação e remeteu para o arquivo a minha explicação. Que se dane o PIB parece ser a opinião, trabalhou que se fartou.
E as lulas, amigos, as lulas estavam a derreter na boca.
A culpa não é minha, afianço-vos, juro-vos! A culpa é destas aulas que ando a preparar (talvez a expressão "com as quais ando a obcecar" seja mais apropriada).
Então hoje, mamãe e Maria conversavam sobre o muito trabalho doméstico que mamãe tem feito de maneira a que esta vos saúda se possa vestir de workaholic, roupagem que, vá-se lá saber por obra de que economista abençoado ou homenageado ou doutorado honoris causa, ainda serve, e assim preparar o material de apoio que distribuirá aos seus pupilos.
E a conversa versou, alturas tantas, sobre a contribuição de cada uma de nós para o PIB, que quer dizer Produto Interno Bruto. Produto quem, perguntais já a pensar se é desta que desistis de cá vir malbaratar vosso tempo, ou se não tanto desistir da minha companhia, pelo menos se é de parar já por aqui que o texto parece vir ratado e por isso xô!
Amigos, tende calma que eu vou com jeitinho.
O PIB é, tão simplesmente,
o valor de mercado de todos os bens finais e serviços produzidos por um país durante um determinado período de tempo.
E pronto, mamãe dizia-me da sua produção durante o dia (pelo menos o jantar foi um absolutamente delicioso arroz branco com lulas) e que tinha contribuído muito para o PIB. Indirectamente, talvez, ao deixar-me trabalhar, expliquei.
É que o trabalho doméstico, a bem dizer qualquer trabalho efectuado para autoconsumo, como o cozinhar, limpar, ou tomar conta das crianças ou dos idosos não é considerado pelo PIB. Essencialmente por razões de ordem prática, afinal como medir -- entenda-se avaliar -- o trabalho de alguém na sua casa? Por exemplo, como avaliar o valor da refeição preparada por uma mãe CEO com salário milionário a cozinhar para o filho? Será que este valor difere do valor da refeição preparada por uma mãe que recebe o salário mínimo; e se o pai ajudar a descascar as batatas enquanto toma conta de um filho e ajuda o outro nos trabalhos de casa, como se divide o tempo entre as tarefas?
Mamãe não gostou da observação e remeteu para o arquivo a minha explicação. Que se dane o PIB parece ser a opinião, trabalhou que se fartou.
E as lulas, amigos, as lulas estavam a derreter na boca.
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Sabes que te estás a divertir com a preparação das aulas quando... #2
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Maria Bê
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Sabes que te estás a divertir com a preparação das aulas quando...
Este ano vou dar uma disciplina nova, que nunca dei: macroeconomia. Já tive, já detestei, e agora estou do outro lado da secretária (o universo, garanto-vos, tem um sentido de humor muito manhoso).
E tenho estado, portanto, envolvida na preparação de alguns textos de apoio (fundamentalmente daquele material que não acho esteja bem tratado ou completo no livro, por exemplo a Contabilidade Nacional -- como é que se calcula o Produto Interno Bruto e o que é, o que o défice público e como difere da dívida pública...
Isto ajuda a explicar a minha relativa ausência da blogosfera e o atraso na resposta aos mails que se vão acumulando na inbox.
Tendo começado um capítulo novo, que por acaso antecede o calhamaço de quarenta páginas que estou a terminar, escrevi os primeiros dois parágrafos assim:
É desta que me despedem...
E tenho estado, portanto, envolvida na preparação de alguns textos de apoio (fundamentalmente daquele material que não acho esteja bem tratado ou completo no livro, por exemplo a Contabilidade Nacional -- como é que se calcula o Produto Interno Bruto e o que é, o que o défice público e como difere da dívida pública...
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz ronc ronc zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...
Tendo começado um capítulo novo, que por acaso antecede o calhamaço de quarenta páginas que estou a terminar, escrevi os primeiros dois parágrafos assim:
Qualquer professor dirá aos seus alunos, no primeiro dia de aulas e depois repetidamente ao longo do semestre, que a sua disciplina é importante. Alguns têm mesmo razão, nomeadamente os professores de macroeconomia. E têm razão porque a economia influencia e continuará a influenciar a vida dos alunos para todo o sempre (cuja frequência da disciplina e das aula na universidade, mesmo que os alunos não o saibam, tem subjacente uma razão económica, a de que os alunos esperam ter um melhor emprego do que se tivessem parado a sua formação académica no liceu, por exemplo).
A macroeconomia, em particular, é importante para os alunos porque, ignorando agora as suas características individuais, tais como fluência em línguas, proactividade, e capacidade de trabalho, são o nível geral de emprego e de desemprego que determinam a facilidade com que encontram emprego depois de terminar o curso, com que poderão mudar de emprego, ou conseguir promoções no futuro. A taxa de inflação é um dos principais determinantes da taxa de juro, que influencia a remuneração que os alunos receberão pelos seus depósitos e os juros que terão de pagar pelos seus empréstimos. A taxa de inflação determina também até que ponto o poder de compra da poupança estará ou não enfraquecido por preços mais elevados. É portanto importante entender de que trata a macroeconomia.
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Economicamente brainwashed
Eu queria sentar-me aqui, na cadeirita branca comprada no IKEA, à secretária, também ela branca, e também ela comprada no IKEA, e debitar grandes postas de pescada que entretivessem vossos espíritos, alimentassem vossas mentes sedentas de saber, e fizessem sorrir, se não vossos corações, pelo menos vossas bocas e músculos adjacentes, que é certo e sabido, pelo menos por mim, que sorriso que é sorriso só vale se for até aos olhos e, entre mais ou menos branco consante a cor da dentadura, não for amarelo (nada contra, até acho cor muito linda).
Eu queria, amigos, a sério que queria, mas infelizmente não temos tempo.
Deixo-vos todavia com um pedaço de leitura interessante. Dois, aliás, sobre essa raça de gente que anda aí pelas bocas do povo, algumas bem mais amargas que outras, os economistas (cospe, cospe, blherc!). Na era dos workshops sobre tudo e mais alguma coisa, alguns haveria mais interessantes do que outros, nomeadamente aqueles que nos obrigam a pensar sobre as verdades que temos como absolutas. À maioria dos economistas conviria ler estes dois textos. À maioria da malta que acha ou tem a certeza que os economistas não percebem muito de coisa alguma também. E ao resto, assim como assim.
No primeiro podemos ler, entre outras observações pertinentes, que "[a] economia não tem uma ideologia". Mankiw, o autor desta afirmação, continuou a sua ideia citando John Maynard Keynes, um economista dos anos trinta que é considerado o pai da macroeconomia (adoro esta expressão) e que explicou que "a economia é um método que ajuda as pessoas a pensar de forma correcta e a obter as respostas certas, sem conclusões de orientação predeterminada".
É também de Keynes a expressão "animal spirits", que o Economist gentilmente explica como o nome colorido que simboliza um optimismo ingénuo de que são dotados os empreendedores e que os leva a tomar decisões (assim uma espécie de confiança). De onde vem, não sabemos. O que justamente motiva que busquemos a sua proveniência.
E eis-nos chegados ao segundo texto, que fala de neuroeconomia e de como talvez um dia será possível compreender como as economias funcionam através de um melhor entendimento de como as estruturas físicas do cérebro funcionam. Este melhor entendimento tem o potencial de vir a revolucionar o modo como a economia é pensada pois pode deitar por terra (outra expressão cá do peito) um dos verdadeiros cavalos de batalha (ai outra!) da teoria económica, o pressuposto de que os agentes são racionais e que portanto são capazes de fazer escolhas que maximizam a sua felicidade (que em patuá economês se chama utilidade).
Muito, como diria amantíssimo esposo, neat.
A emissão regular de parvoíces segue dentro de instantes que cremos fervorosamente não demorarem muito. Obrigada pela preferência.
Eu queria, amigos, a sério que queria, mas infelizmente não temos tempo.
Deixo-vos todavia com um pedaço de leitura interessante. Dois, aliás, sobre essa raça de gente que anda aí pelas bocas do povo, algumas bem mais amargas que outras, os economistas (cospe, cospe, blherc!). Na era dos workshops sobre tudo e mais alguma coisa, alguns haveria mais interessantes do que outros, nomeadamente aqueles que nos obrigam a pensar sobre as verdades que temos como absolutas. À maioria dos economistas conviria ler estes dois textos. À maioria da malta que acha ou tem a certeza que os economistas não percebem muito de coisa alguma também. E ao resto, assim como assim.
No primeiro podemos ler, entre outras observações pertinentes, que "[a] economia não tem uma ideologia". Mankiw, o autor desta afirmação, continuou a sua ideia citando John Maynard Keynes, um economista dos anos trinta que é considerado o pai da macroeconomia (adoro esta expressão) e que explicou que "a economia é um método que ajuda as pessoas a pensar de forma correcta e a obter as respostas certas, sem conclusões de orientação predeterminada".
É também de Keynes a expressão "animal spirits", que o Economist gentilmente explica como o nome colorido que simboliza um optimismo ingénuo de que são dotados os empreendedores e que os leva a tomar decisões (assim uma espécie de confiança). De onde vem, não sabemos. O que justamente motiva que busquemos a sua proveniência.
E eis-nos chegados ao segundo texto, que fala de neuroeconomia e de como talvez um dia será possível compreender como as economias funcionam através de um melhor entendimento de como as estruturas físicas do cérebro funcionam. Este melhor entendimento tem o potencial de vir a revolucionar o modo como a economia é pensada pois pode deitar por terra (outra expressão cá do peito) um dos verdadeiros cavalos de batalha (ai outra!) da teoria económica, o pressuposto de que os agentes são racionais e que portanto são capazes de fazer escolhas que maximizam a sua felicidade (que em patuá economês se chama utilidade).
Muito, como diria amantíssimo esposo, neat.
A emissão regular de parvoíces segue dentro de instantes que cremos fervorosamente não demorarem muito. Obrigada pela preferência.
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terça-feira, 17 de maio de 2011
Dez anos de amestramento
Há momentos em que pensamos "nunca me hei-de esquecer deste momento e celebrá-lo-ei sempre". Um momento. Pode ser um sorriso, pode ser uma lágrima. Pode ser um reencontro, pode ser um adeus. Pode ser um cheiro, pode ser um pôr-do-sol, pode ser uma lua amarela e redonda quase a pousar no mar lá para os lados da Foz, no Porto. Podem ser soluços num balcão de embarque em Lisboa, prestes a entrar para um avião rumo aos EUA, podem ser sorrisos nas chegadas ao Porto.
Hoje venho aqui recordar o momento em que defendi uma tese que foi transpirada, até porque escrita maioritariamente no Verão de Braga, e o júri me congratulou pelo trabalho bem feito. No Domingo, dia 15 de Maio, fez dez anos que terminei o mestrado.
A própria tese?
Um estudo engraçado sobre um modelo extremamente intuitivo do comércio internacional mas que, por razões várias, normalmente não se porta bem quando sujeito a verificação empírica. Desenvolvido pelos economistas suecos Heckscher e Ohlin em meados dos anos 30, e daí que seja chamado de modelo de Heckscher-Ohlin, o modelo explica por que é que os países trocam produtos ou serviços entre si.
Fundamentalmente, os países trocam entre si porque são diferentes, e são diferentes porque diferem, passe a redundância, na quantidade de factores de produção de que dispõem. Não importa se um país é grande ou pequeno, o que importa é que a proporção de factores difira entre eles. O modelo sugere então que os países devem exportar os bens que usam em maior grau o factor de produção em que são abundantes e por sua vez importar aqueles bens que usam em maior grau o factor de produção em que são escassos.
Há um bocadinho de paleio técnico que estou a evitar, mas o cerne da questão é este. Por exemplo, se o Brasil tem bom tempo e boa terra e se os americanos têm malta empenhada e tecnicamente preparada, e se o café precisa de bom tempo e boa terra para que cresça e os aviões precisam de malta empenhada e tecnicamente preparada para serem produzidos, então é natural que o Brasil exporte café e os EUA exportem aviões. Faz sentido, não faz? De acordo com o modelo, se os países se especializarem de acordo com este padrão, o nível de vida de ambos melhora, tendo os países tanto mais a ganhar quanto mais diferentes forem entre si.
A figura abaixo representa o caso de dois países, um abundante em mão-de-obra, o país B, e o outro abundante em capital, o país A, ambos a produzirem jeans, intensivos em mão-de-obra, e telemóveis, intensivos em capital.* O modelo sugere que o país B exporte jeans e o país A exporte telemóveis. Uma vez que os recursos são escassos, os países fazem uma afectação mais eficiente dos recursos dedicando-se a produzir o bem que usa intensivamente o factor de produção em que cada um é abundante.
O meu estudo pegou na hipótese fulcral do modelo e aplicou-a ao comércio internacional regional de Portugal com os seus parceiros da União Europeia a, salvo erro, doze. E observei, entre outros, que por exemplo a região Norte exportava maioritariamente produtos do sector têxtil e vestuário, e importava coisas como máquinas e aparelhos, tal como o sugerido pela teoria quando atentávamos à qualificação da mão-de-obra e dotação de capital. Gostei muito do que estudei e ainda hoje me empolgo toda quando falo no assunto.
Se ficaram curiosos, a Nobelprize.org tem um artigo simpaticíssimo sobre este modelo.
*A palavra "intensivo" é um conceito relativo. Por exemplo, se um bolo precisa de quatro ovos e 100 gramas de farinha e um crepe precisa de um ovo e cinquenta gramas de farinha, é óbvio que o bolo precisa de quatro vezes mais ovos e duas vezes mais farinha do que o crepe. Logo, o bolo precisa de proporcionalmente mais ovos do que precisa de farinha relativamente ao crepe, sendo por isso intensivo em ovos (relativamente ao crepe).
Adenda culinária: não faço ideia de como se faz um crepe.
Hoje venho aqui recordar o momento em que defendi uma tese que foi transpirada, até porque escrita maioritariamente no Verão de Braga, e o júri me congratulou pelo trabalho bem feito. No Domingo, dia 15 de Maio, fez dez anos que terminei o mestrado.
A própria tese?
Um estudo engraçado sobre um modelo extremamente intuitivo do comércio internacional mas que, por razões várias, normalmente não se porta bem quando sujeito a verificação empírica. Desenvolvido pelos economistas suecos Heckscher e Ohlin em meados dos anos 30, e daí que seja chamado de modelo de Heckscher-Ohlin, o modelo explica por que é que os países trocam produtos ou serviços entre si.
Fundamentalmente, os países trocam entre si porque são diferentes, e são diferentes porque diferem, passe a redundância, na quantidade de factores de produção de que dispõem. Não importa se um país é grande ou pequeno, o que importa é que a proporção de factores difira entre eles. O modelo sugere então que os países devem exportar os bens que usam em maior grau o factor de produção em que são abundantes e por sua vez importar aqueles bens que usam em maior grau o factor de produção em que são escassos.
Há um bocadinho de paleio técnico que estou a evitar, mas o cerne da questão é este. Por exemplo, se o Brasil tem bom tempo e boa terra e se os americanos têm malta empenhada e tecnicamente preparada, e se o café precisa de bom tempo e boa terra para que cresça e os aviões precisam de malta empenhada e tecnicamente preparada para serem produzidos, então é natural que o Brasil exporte café e os EUA exportem aviões. Faz sentido, não faz? De acordo com o modelo, se os países se especializarem de acordo com este padrão, o nível de vida de ambos melhora, tendo os países tanto mais a ganhar quanto mais diferentes forem entre si.
A figura abaixo representa o caso de dois países, um abundante em mão-de-obra, o país B, e o outro abundante em capital, o país A, ambos a produzirem jeans, intensivos em mão-de-obra, e telemóveis, intensivos em capital.* O modelo sugere que o país B exporte jeans e o país A exporte telemóveis. Uma vez que os recursos são escassos, os países fazem uma afectação mais eficiente dos recursos dedicando-se a produzir o bem que usa intensivamente o factor de produção em que cada um é abundante.
| http://nobelprize.org/educational/economics/trade/ohlin.html |
O meu estudo pegou na hipótese fulcral do modelo e aplicou-a ao comércio internacional regional de Portugal com os seus parceiros da União Europeia a, salvo erro, doze. E observei, entre outros, que por exemplo a região Norte exportava maioritariamente produtos do sector têxtil e vestuário, e importava coisas como máquinas e aparelhos, tal como o sugerido pela teoria quando atentávamos à qualificação da mão-de-obra e dotação de capital. Gostei muito do que estudei e ainda hoje me empolgo toda quando falo no assunto.
Se ficaram curiosos, a Nobelprize.org tem um artigo simpaticíssimo sobre este modelo.
*A palavra "intensivo" é um conceito relativo. Por exemplo, se um bolo precisa de quatro ovos e 100 gramas de farinha e um crepe precisa de um ovo e cinquenta gramas de farinha, é óbvio que o bolo precisa de quatro vezes mais ovos e duas vezes mais farinha do que o crepe. Logo, o bolo precisa de proporcionalmente mais ovos do que precisa de farinha relativamente ao crepe, sendo por isso intensivo em ovos (relativamente ao crepe).
Adenda culinária: não faço ideia de como se faz um crepe.
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quarta-feira, 11 de maio de 2011
Inspira, expira, inspira, expira, inspira...
Inspira. Devagar, pausadamente. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Chego aos seis? Seis. Agora expira. Um. Dois. Três. Este foi rápido, compensa no próximo. Quatro. Cinco. Seis. Ainda sobrou um bocadinho de ar, batoteira. Sete. Inspira. Um. Dois. Três...
Também na preparação para o parto foi assim. A minha tão querida Enfermeira Fátima, de cronómetro na mão, monitorizava o progresso das minhas respirações dizendo que o objectivo era chegar a contar até, talvez, treze, ainda que o que importasse verdadeiramente era a viagem e não propriamente o destino. Ainda bem, porque nunca lá cheguei. Houve um dia, um dia só, solitário, sozinho, que cheguei aos doze segundos, mas a minha moda foi onze.#1
Respirar conscientemente não foi novidade para mim, lembro-me de o fazer quando ainda andava no secundário. A verdade é que os testes de matemática me deixavam numa pilha de nervos, e a dada altura percebi que, respirando intensa e pausadamente, conseguia centrar-me. Nem tanto concentrar-me, não era e não é isso. O que realmente acontece quando eu respiro assim é que o mundo pára. De olhos fechados, que já que sou tola também há que o parecer, à minha volta deixam de existir pessoas, deixa de existir mundo. O tempo e o espaço passam a existir noutra dimensão que finalmente me é alheia e me permite encontrar-me no centro de mim.
Mais tarde, durante a prova específica de matemática, com o cérebro em quinta a trautear o "Amor de água fresca", da Dina, e já prestes a passar-me dos carretos com uma prova demasiado longa numa sala demasiado pequena cheia de "Maria José", fi-lo e resultou.
Lembro-me distintamente de o fazer no doutoramento, antes dos preliminary exams. Enquanto os professores organizavam a distribuição das provas e os colegas debatiam a organização anónima das ditas, fui à minha procura e, ao que parece, encontrei-me, porque passei nos dois testes e ainda fui capaz de uma piadola num deles.#2
Hoje de manhã tive de respirar fundo. Duas vezes quase me saía o coração pela boca.
A primeira vez foi quando, ainda de olhos remelentos e mal abertos, peguei no telefone para ver os mails. Na Inbox os comentários ao meu blog. Um da Rita Maria, a dizer que sim, que é ela quem por cá dá um ar da graça, e que graça cá trazes, menina, e outro da I., que com toda a licença veio ao meu humilde estabelecimento confessar que também ela é poupadinha. Fiquei em choque, claro está, que é o mínimo que se pode esperar!
A segunda foi quando, na minha digressão matinal do meu universo bloguístico, vou ler as intenções da Rita Maria, sim a mesma do parágrafo acima, e leio que ela me presenteou com um questionário sobre, à falta de melhor descrição, os nossos livros, aqueles que lemos e relemos e voltamos a reler (sim, querida, sei que o voltar a reler é assim um bocado a modos que coiso). Está doida, a moça! Ó Maria Rita, então não sabes que eu sou mãe e que por cá é mais Rua Sésamo, e cocós, e mãos cheias de terra ou pedrinhas? Mas eu responderei, claro. Certa de que a minha lista será muito menos impressionante que a dela e que a de todos a quem passou a estafeta, mas nem por isso menos escrita com menos afecto.
Agora, se me dais licença, vou ali respirar mais um bocadinho e já volto. Inspira. Um. Dois. Três. Quatro... é desta que chego aos treze...
#1. Não, não rumei a outras praias e decidi ter um blog mais fashion. Moda é, estatisticamente falando -- já vos disse que fui professora de estatística? -- é... a observação que ocorre com mais frequência numa determinada série. Por exemplo, se algum curioso um dia quiser saber o número de bolachas que eu como por dia, e se eu responder que num dia comi cinco, no dia seguinte comi oito, no dia a seguir a esse comi seis, e no dia a seguir comi cinco, e depois desgracei-me e comi treze, depois para me redimir comi três, mas no dia seguinte lá voltei a escorregar e comi cinco... Em primeiro lugar, constatará que eu sou uma grandessíssima mentirosa, porque eu comer menos do que sete bolachas de uma só vez é virtualmente impossível. Não havendo nada a fazer quanto à mentira, em segundo lugar observará que a moda dos meus lanches é cinco, as tais cinco bolachas que eu afirmo, juro as pés juntos, e quem mais jura é quem mais mente, ter comido nesses dias. Cinco foi o número de bolachas diário que eu mais comi nessa semana.
Gostavam de ter uma professora de estatística como eu, não gostavam?
#2. Os preliminary exams da North Carolina State University, também conhecidos como qualifiers noutras instituições, têm lugar no final do primeiro ano, o core year, durante o qual se estudam as disciplinas basilares da economia, microeconomia, macroeconomia, e econometria (daí o nome core). No meu caso, os exames foram só de micro e macro, mas há escolas onde há exames de econometria e mesmo das disciplinas de especialização (economia internacional e desenvolvimento). De quatro horas cada um, os exames são hard core, e qualquer coisa pode ser perguntada, desde a economia mais simples, para testar a nossa intuição, à mais complicada, para testar o nosso conhecimento. Claro está que às vezes há perguntas mesmo maradas cuja finalidade é apenas e só testar o nosso desenrascanço, o que também tem de pertencer ao rol de faculdades de qualquer economista que se preze. Todavia o pior destes exames é que não há nota, há apenas um pass ou fail no final. No primeiro caso, isso significa até ao próximo semestre, goza as férias. No segundo caso, basicamente significa faz as malinhas e xau xau. Há uma, uma só possibilidade de refazer o exame, mas um segundo fail é mesmo have a nice life. Stressantes? Não, que ideia!
Também na preparação para o parto foi assim. A minha tão querida Enfermeira Fátima, de cronómetro na mão, monitorizava o progresso das minhas respirações dizendo que o objectivo era chegar a contar até, talvez, treze, ainda que o que importasse verdadeiramente era a viagem e não propriamente o destino. Ainda bem, porque nunca lá cheguei. Houve um dia, um dia só, solitário, sozinho, que cheguei aos doze segundos, mas a minha moda foi onze.#1
Respirar conscientemente não foi novidade para mim, lembro-me de o fazer quando ainda andava no secundário. A verdade é que os testes de matemática me deixavam numa pilha de nervos, e a dada altura percebi que, respirando intensa e pausadamente, conseguia centrar-me. Nem tanto concentrar-me, não era e não é isso. O que realmente acontece quando eu respiro assim é que o mundo pára. De olhos fechados, que já que sou tola também há que o parecer, à minha volta deixam de existir pessoas, deixa de existir mundo. O tempo e o espaço passam a existir noutra dimensão que finalmente me é alheia e me permite encontrar-me no centro de mim.
Mais tarde, durante a prova específica de matemática, com o cérebro em quinta a trautear o "Amor de água fresca", da Dina, e já prestes a passar-me dos carretos com uma prova demasiado longa numa sala demasiado pequena cheia de "Maria José", fi-lo e resultou.
Lembro-me distintamente de o fazer no doutoramento, antes dos preliminary exams. Enquanto os professores organizavam a distribuição das provas e os colegas debatiam a organização anónima das ditas, fui à minha procura e, ao que parece, encontrei-me, porque passei nos dois testes e ainda fui capaz de uma piadola num deles.#2
Hoje de manhã tive de respirar fundo. Duas vezes quase me saía o coração pela boca.
A primeira vez foi quando, ainda de olhos remelentos e mal abertos, peguei no telefone para ver os mails. Na Inbox os comentários ao meu blog. Um da Rita Maria, a dizer que sim, que é ela quem por cá dá um ar da graça, e que graça cá trazes, menina, e outro da I., que com toda a licença veio ao meu humilde estabelecimento confessar que também ela é poupadinha. Fiquei em choque, claro está, que é o mínimo que se pode esperar!
A segunda foi quando, na minha digressão matinal do meu universo bloguístico, vou ler as intenções da Rita Maria, sim a mesma do parágrafo acima, e leio que ela me presenteou com um questionário sobre, à falta de melhor descrição, os nossos livros, aqueles que lemos e relemos e voltamos a reler (sim, querida, sei que o voltar a reler é assim um bocado a modos que coiso). Está doida, a moça! Ó Maria Rita, então não sabes que eu sou mãe e que por cá é mais Rua Sésamo, e cocós, e mãos cheias de terra ou pedrinhas? Mas eu responderei, claro. Certa de que a minha lista será muito menos impressionante que a dela e que a de todos a quem passou a estafeta, mas nem por isso menos escrita com menos afecto.
Agora, se me dais licença, vou ali respirar mais um bocadinho e já volto. Inspira. Um. Dois. Três. Quatro... é desta que chego aos treze...
#1. Não, não rumei a outras praias e decidi ter um blog mais fashion. Moda é, estatisticamente falando -- já vos disse que fui professora de estatística? -- é... a observação que ocorre com mais frequência numa determinada série. Por exemplo, se algum curioso um dia quiser saber o número de bolachas que eu como por dia, e se eu responder que num dia comi cinco, no dia seguinte comi oito, no dia a seguir a esse comi seis, e no dia a seguir comi cinco, e depois desgracei-me e comi treze, depois para me redimir comi três, mas no dia seguinte lá voltei a escorregar e comi cinco... Em primeiro lugar, constatará que eu sou uma grandessíssima mentirosa, porque eu comer menos do que sete bolachas de uma só vez é virtualmente impossível. Não havendo nada a fazer quanto à mentira, em segundo lugar observará que a moda dos meus lanches é cinco, as tais cinco bolachas que eu afirmo, juro as pés juntos, e quem mais jura é quem mais mente, ter comido nesses dias. Cinco foi o número de bolachas diário que eu mais comi nessa semana.
Gostavam de ter uma professora de estatística como eu, não gostavam?
#2. Os preliminary exams da North Carolina State University, também conhecidos como qualifiers noutras instituições, têm lugar no final do primeiro ano, o core year, durante o qual se estudam as disciplinas basilares da economia, microeconomia, macroeconomia, e econometria (daí o nome core). No meu caso, os exames foram só de micro e macro, mas há escolas onde há exames de econometria e mesmo das disciplinas de especialização (economia internacional e desenvolvimento). De quatro horas cada um, os exames são hard core, e qualquer coisa pode ser perguntada, desde a economia mais simples, para testar a nossa intuição, à mais complicada, para testar o nosso conhecimento. Claro está que às vezes há perguntas mesmo maradas cuja finalidade é apenas e só testar o nosso desenrascanço, o que também tem de pertencer ao rol de faculdades de qualquer economista que se preze. Todavia o pior destes exames é que não há nota, há apenas um pass ou fail no final. No primeiro caso, isso significa até ao próximo semestre, goza as férias. No segundo caso, basicamente significa faz as malinhas e xau xau. Há uma, uma só possibilidade de refazer o exame, mas um segundo fail é mesmo have a nice life. Stressantes? Não, que ideia!
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segunda-feira, 9 de maio de 2011
Acordo com a тройка
O Fernando e o Luís conversam sobre do acordo com a Troika:
Resumidamente, os dois concluem que...
#1. O acordo foi mais suave do que esperávamos, o que pode muito simplesmente advir de um erro nas nossas expectativas, que antecipavam algo bem mais duro;
#2. Portugal beneficia da experiência dos programas da Grécia e da Irlanda, principalmente dos erros que foram cometidos com estes países;
#3. A inflação em Portugal implica que mesmo que não haja cortes salariais nos verbetes de vencimento, eles existirão na prática, e os salários reais vão diminuir, i.e., cem euros amanhã vão comprar menos coisas do que cem euros no ano passado porque essas coisas estão mais caras. É este fenómeno que o Fernando tem em mente quando afirma que os eleitores sofrem de "ilusão monetária" e que por isso não se aperceberão da diferença entre o salário nominal, o tal nos verbetes, e o salário real, o que determina o quão cheio (vazio?) ficará o seu carrinho de compras no final do mês. Eu não sei se os eleitores são assim tão míopes...
#4. Deixam no ar a dúvida: o PEC4 chega?
No canal economiaportuguesa no youtube há mais vídeos.
Resumidamente, os dois concluem que...
#1. O acordo foi mais suave do que esperávamos, o que pode muito simplesmente advir de um erro nas nossas expectativas, que antecipavam algo bem mais duro;
#2. Portugal beneficia da experiência dos programas da Grécia e da Irlanda, principalmente dos erros que foram cometidos com estes países;
#3. A inflação em Portugal implica que mesmo que não haja cortes salariais nos verbetes de vencimento, eles existirão na prática, e os salários reais vão diminuir, i.e., cem euros amanhã vão comprar menos coisas do que cem euros no ano passado porque essas coisas estão mais caras. É este fenómeno que o Fernando tem em mente quando afirma que os eleitores sofrem de "ilusão monetária" e que por isso não se aperceberão da diferença entre o salário nominal, o tal nos verbetes, e o salário real, o que determina o quão cheio (vazio?) ficará o seu carrinho de compras no final do mês. Eu não sei se os eleitores são assim tão míopes...
#4. Deixam no ar a dúvida: o PEC4 chega?
No canal economiaportuguesa no youtube há mais vídeos.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
Economia portuguesa no youtube
Em semana de muita discussão filosófica sobre o estado da economia e sobre as medidas de austeridade que por aí vêm, aqui ficam dois vídeos do canal "economiaportuguesa" no youtube. Pois é assim mesmo, bem à portuguesa, seja lá o que isto quer dizer, um canal sobre a economia. A própria, a portuguesa. A que é de todos nós mas que já não está nas nossas mãos (esteve-o algum dia?). A que tem de apertar o cinto e que, mesmo depois de perder peso, não pode comprar calças novas a bem da poupança. Valem-nos as cuecas, que têm elásticos...
Agora (mais) a sério...
O primeiro vídeo, com propostas para como viver com a crise, emitido pela RTP. Comentado pelo Luís, pelo Fernando, e pelo João:
O segundo vídeo, sobre as agências de rating e a sua negligência ao ignorar o risco elevado da dívida pública portuguesa. Muito bem explicado pelo Luís:
Agora (mais) a sério...
O primeiro vídeo, com propostas para como viver com a crise, emitido pela RTP. Comentado pelo Luís, pelo Fernando, e pelo João:
O segundo vídeo, sobre as agências de rating e a sua negligência ao ignorar o risco elevado da dívida pública portuguesa. Muito bem explicado pelo Luís:
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