A propósito do vídeo de como usar um cachecol/pashmina/écharpe, mamãe envia-me prontamente um email (mamãe é dada a estas modernidades, até facebooka!) a perguntar se me falta inspiração para escrever.
Mamãe (e vós que me ledes, sempre tão simpaticamente), não me falta (só) inspiração, falta-me tempo. Como consta do contómetro aqui ao lado, faltam umas meras duas semanas para voltar à pátria, e nessas duas semanas a família bolacha ainda vai dar um ar de sua graça por muito lado.
Se na Segunda vamos, mini-bolacha e sua mamãe, à Ironwood Library logo pela fresca ouvir contar histórias, já na Terça todos os três (para parecermos muitos) deixamos para trás a muito quente e soalheira Phoenix e rumamos à Califórnia, mais precisamente a San Rafael, uma terriola lindíssima onde pululam colinas de onde em onde a que os muitos veados chamam casa (pormenor de somais importância quando se conduz à noite) e que fica a cerca de 20 milhas (32 km) a norte de São Francisco. Esperam-me dias de leitura, lazer, caminhadas vigorosas, e overall dolce fare niente em casa dos sogros. Só de pensar nisso até sinto a preguiça a invadir-me os dedos. Nunca me esqueço que o primeiro livro que li depois da minha filha nascer foi lá, a miúda devidamente tratada e brincada pela avó paterna e eu finalmente com tempo. O livro o In Cold Blood, do Truman Capote.
Agora que penso em livros, tenho o desafio da Rita Maria para responder há que tempos... ai que ela me despede de blogo-compincha e depois é uma chatice (para mim). Não passa de amanhã!
*Trocadilho com o título da peça "Much Ado About Nothing", ou muito barulho por coisa nenhuma, do William. Da família dos Shakespeares, os tais que viviam em Stratford upon Avon. E nope, se o tal do rio Stratford ficar para os lados do Oriflame então é porque não são os mesmos.
Quando me dá para escrever estas palermices é certinho que está na hora de fechar o computador e ir dormir.
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
Much to do about nothing*
Desempacotado por
Maria Bê
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quarta-feira, 11 de maio de 2011
Inspira, expira, inspira, expira, inspira...
Inspira. Devagar, pausadamente. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Chego aos seis? Seis. Agora expira. Um. Dois. Três. Este foi rápido, compensa no próximo. Quatro. Cinco. Seis. Ainda sobrou um bocadinho de ar, batoteira. Sete. Inspira. Um. Dois. Três...
Também na preparação para o parto foi assim. A minha tão querida Enfermeira Fátima, de cronómetro na mão, monitorizava o progresso das minhas respirações dizendo que o objectivo era chegar a contar até, talvez, treze, ainda que o que importasse verdadeiramente era a viagem e não propriamente o destino. Ainda bem, porque nunca lá cheguei. Houve um dia, um dia só, solitário, sozinho, que cheguei aos doze segundos, mas a minha moda foi onze.#1
Respirar conscientemente não foi novidade para mim, lembro-me de o fazer quando ainda andava no secundário. A verdade é que os testes de matemática me deixavam numa pilha de nervos, e a dada altura percebi que, respirando intensa e pausadamente, conseguia centrar-me. Nem tanto concentrar-me, não era e não é isso. O que realmente acontece quando eu respiro assim é que o mundo pára. De olhos fechados, que já que sou tola também há que o parecer, à minha volta deixam de existir pessoas, deixa de existir mundo. O tempo e o espaço passam a existir noutra dimensão que finalmente me é alheia e me permite encontrar-me no centro de mim.
Mais tarde, durante a prova específica de matemática, com o cérebro em quinta a trautear o "Amor de água fresca", da Dina, e já prestes a passar-me dos carretos com uma prova demasiado longa numa sala demasiado pequena cheia de "Maria José", fi-lo e resultou.
Lembro-me distintamente de o fazer no doutoramento, antes dos preliminary exams. Enquanto os professores organizavam a distribuição das provas e os colegas debatiam a organização anónima das ditas, fui à minha procura e, ao que parece, encontrei-me, porque passei nos dois testes e ainda fui capaz de uma piadola num deles.#2
Hoje de manhã tive de respirar fundo. Duas vezes quase me saía o coração pela boca.
A primeira vez foi quando, ainda de olhos remelentos e mal abertos, peguei no telefone para ver os mails. Na Inbox os comentários ao meu blog. Um da Rita Maria, a dizer que sim, que é ela quem por cá dá um ar da graça, e que graça cá trazes, menina, e outro da I., que com toda a licença veio ao meu humilde estabelecimento confessar que também ela é poupadinha. Fiquei em choque, claro está, que é o mínimo que se pode esperar!
A segunda foi quando, na minha digressão matinal do meu universo bloguístico, vou ler as intenções da Rita Maria, sim a mesma do parágrafo acima, e leio que ela me presenteou com um questionário sobre, à falta de melhor descrição, os nossos livros, aqueles que lemos e relemos e voltamos a reler (sim, querida, sei que o voltar a reler é assim um bocado a modos que coiso). Está doida, a moça! Ó Maria Rita, então não sabes que eu sou mãe e que por cá é mais Rua Sésamo, e cocós, e mãos cheias de terra ou pedrinhas? Mas eu responderei, claro. Certa de que a minha lista será muito menos impressionante que a dela e que a de todos a quem passou a estafeta, mas nem por isso menos escrita com menos afecto.
Agora, se me dais licença, vou ali respirar mais um bocadinho e já volto. Inspira. Um. Dois. Três. Quatro... é desta que chego aos treze...
#1. Não, não rumei a outras praias e decidi ter um blog mais fashion. Moda é, estatisticamente falando -- já vos disse que fui professora de estatística? -- é... a observação que ocorre com mais frequência numa determinada série. Por exemplo, se algum curioso um dia quiser saber o número de bolachas que eu como por dia, e se eu responder que num dia comi cinco, no dia seguinte comi oito, no dia a seguir a esse comi seis, e no dia a seguir comi cinco, e depois desgracei-me e comi treze, depois para me redimir comi três, mas no dia seguinte lá voltei a escorregar e comi cinco... Em primeiro lugar, constatará que eu sou uma grandessíssima mentirosa, porque eu comer menos do que sete bolachas de uma só vez é virtualmente impossível. Não havendo nada a fazer quanto à mentira, em segundo lugar observará que a moda dos meus lanches é cinco, as tais cinco bolachas que eu afirmo, juro as pés juntos, e quem mais jura é quem mais mente, ter comido nesses dias. Cinco foi o número de bolachas diário que eu mais comi nessa semana.
Gostavam de ter uma professora de estatística como eu, não gostavam?
#2. Os preliminary exams da North Carolina State University, também conhecidos como qualifiers noutras instituições, têm lugar no final do primeiro ano, o core year, durante o qual se estudam as disciplinas basilares da economia, microeconomia, macroeconomia, e econometria (daí o nome core). No meu caso, os exames foram só de micro e macro, mas há escolas onde há exames de econometria e mesmo das disciplinas de especialização (economia internacional e desenvolvimento). De quatro horas cada um, os exames são hard core, e qualquer coisa pode ser perguntada, desde a economia mais simples, para testar a nossa intuição, à mais complicada, para testar o nosso conhecimento. Claro está que às vezes há perguntas mesmo maradas cuja finalidade é apenas e só testar o nosso desenrascanço, o que também tem de pertencer ao rol de faculdades de qualquer economista que se preze. Todavia o pior destes exames é que não há nota, há apenas um pass ou fail no final. No primeiro caso, isso significa até ao próximo semestre, goza as férias. No segundo caso, basicamente significa faz as malinhas e xau xau. Há uma, uma só possibilidade de refazer o exame, mas um segundo fail é mesmo have a nice life. Stressantes? Não, que ideia!
Também na preparação para o parto foi assim. A minha tão querida Enfermeira Fátima, de cronómetro na mão, monitorizava o progresso das minhas respirações dizendo que o objectivo era chegar a contar até, talvez, treze, ainda que o que importasse verdadeiramente era a viagem e não propriamente o destino. Ainda bem, porque nunca lá cheguei. Houve um dia, um dia só, solitário, sozinho, que cheguei aos doze segundos, mas a minha moda foi onze.#1
Respirar conscientemente não foi novidade para mim, lembro-me de o fazer quando ainda andava no secundário. A verdade é que os testes de matemática me deixavam numa pilha de nervos, e a dada altura percebi que, respirando intensa e pausadamente, conseguia centrar-me. Nem tanto concentrar-me, não era e não é isso. O que realmente acontece quando eu respiro assim é que o mundo pára. De olhos fechados, que já que sou tola também há que o parecer, à minha volta deixam de existir pessoas, deixa de existir mundo. O tempo e o espaço passam a existir noutra dimensão que finalmente me é alheia e me permite encontrar-me no centro de mim.
Mais tarde, durante a prova específica de matemática, com o cérebro em quinta a trautear o "Amor de água fresca", da Dina, e já prestes a passar-me dos carretos com uma prova demasiado longa numa sala demasiado pequena cheia de "Maria José", fi-lo e resultou.
Lembro-me distintamente de o fazer no doutoramento, antes dos preliminary exams. Enquanto os professores organizavam a distribuição das provas e os colegas debatiam a organização anónima das ditas, fui à minha procura e, ao que parece, encontrei-me, porque passei nos dois testes e ainda fui capaz de uma piadola num deles.#2
Hoje de manhã tive de respirar fundo. Duas vezes quase me saía o coração pela boca.
A primeira vez foi quando, ainda de olhos remelentos e mal abertos, peguei no telefone para ver os mails. Na Inbox os comentários ao meu blog. Um da Rita Maria, a dizer que sim, que é ela quem por cá dá um ar da graça, e que graça cá trazes, menina, e outro da I., que com toda a licença veio ao meu humilde estabelecimento confessar que também ela é poupadinha. Fiquei em choque, claro está, que é o mínimo que se pode esperar!
A segunda foi quando, na minha digressão matinal do meu universo bloguístico, vou ler as intenções da Rita Maria, sim a mesma do parágrafo acima, e leio que ela me presenteou com um questionário sobre, à falta de melhor descrição, os nossos livros, aqueles que lemos e relemos e voltamos a reler (sim, querida, sei que o voltar a reler é assim um bocado a modos que coiso). Está doida, a moça! Ó Maria Rita, então não sabes que eu sou mãe e que por cá é mais Rua Sésamo, e cocós, e mãos cheias de terra ou pedrinhas? Mas eu responderei, claro. Certa de que a minha lista será muito menos impressionante que a dela e que a de todos a quem passou a estafeta, mas nem por isso menos escrita com menos afecto.
Agora, se me dais licença, vou ali respirar mais um bocadinho e já volto. Inspira. Um. Dois. Três. Quatro... é desta que chego aos treze...
#1. Não, não rumei a outras praias e decidi ter um blog mais fashion. Moda é, estatisticamente falando -- já vos disse que fui professora de estatística? -- é... a observação que ocorre com mais frequência numa determinada série. Por exemplo, se algum curioso um dia quiser saber o número de bolachas que eu como por dia, e se eu responder que num dia comi cinco, no dia seguinte comi oito, no dia a seguir a esse comi seis, e no dia a seguir comi cinco, e depois desgracei-me e comi treze, depois para me redimir comi três, mas no dia seguinte lá voltei a escorregar e comi cinco... Em primeiro lugar, constatará que eu sou uma grandessíssima mentirosa, porque eu comer menos do que sete bolachas de uma só vez é virtualmente impossível. Não havendo nada a fazer quanto à mentira, em segundo lugar observará que a moda dos meus lanches é cinco, as tais cinco bolachas que eu afirmo, juro as pés juntos, e quem mais jura é quem mais mente, ter comido nesses dias. Cinco foi o número de bolachas diário que eu mais comi nessa semana.
Gostavam de ter uma professora de estatística como eu, não gostavam?
#2. Os preliminary exams da North Carolina State University, também conhecidos como qualifiers noutras instituições, têm lugar no final do primeiro ano, o core year, durante o qual se estudam as disciplinas basilares da economia, microeconomia, macroeconomia, e econometria (daí o nome core). No meu caso, os exames foram só de micro e macro, mas há escolas onde há exames de econometria e mesmo das disciplinas de especialização (economia internacional e desenvolvimento). De quatro horas cada um, os exames são hard core, e qualquer coisa pode ser perguntada, desde a economia mais simples, para testar a nossa intuição, à mais complicada, para testar o nosso conhecimento. Claro está que às vezes há perguntas mesmo maradas cuja finalidade é apenas e só testar o nosso desenrascanço, o que também tem de pertencer ao rol de faculdades de qualquer economista que se preze. Todavia o pior destes exames é que não há nota, há apenas um pass ou fail no final. No primeiro caso, isso significa até ao próximo semestre, goza as férias. No segundo caso, basicamente significa faz as malinhas e xau xau. Há uma, uma só possibilidade de refazer o exame, mas um segundo fail é mesmo have a nice life. Stressantes? Não, que ideia!
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Já cá canta
O livro mais recente do Daniel Silva. Digo-vos já que os tenho todos. E este veio ontem, presentinho cor-de-rosa do senhor bolacha.
Como começou este meu affaire com, entre outros, o Daniel Allon, perguntais vós.
Há muito, muito tempo, andávamos ainda-não-oficialmente-de papel-passado-e-tudo-senhor-bolacha e euzinha a passear por uma Barnes & Noble de Raleigh, NC, quando vi, na secção dos mistérios, mais precisamente na prateleira dos "P's" -- andava na minha fase Mario Puzo -- um livro de um gajo chamado Daniel Silva. Comentei logo com o senhor bolacha que o nome parecia ser português, pelo que a coisa prometia.
Por $7.99, atrevi-me. Ainda pensei um bocadinho, que bolso de estudante tende a ser pouco profundo. "The Mark of the Assassin", acho que foi. Trouxe-o para casa e levei-o comigo para a cama. É, sou uma promíscua, mas já então o senhor bolacha não se importava de me partilhar. E devorei-o. Seguiram-se os outros todinhos. Ontem, mais este.
Já vi o Daniel Silva na lista dos mais vendidos em Portugal e o meu coração ficou mais feliz. O Daniel deve ser boa pessoa, sei lá. Os livros dele dão-me tanto prazer que só pode ser boa pessoa. Gostando dos livros acabo por gostar um bocadinho dele também. Só espero que estejam bem traduzidos, um dia tentei ler o "Of Mice and Men" do Steinbeck em português e quase me ia dando uma coisinha má, mas isto é tema para outro post...
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Anónimo
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