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| Óculos com lentes cor-de-rosa, o fashion accessory de qualquer optimista digno do nome |
Ontem à noite, no quarto de mamãe, mamãe já na caminha refastelada com um livro nas mãos (se eu fossa uma filha à altura saberia que livro anda a ler, talvez seja o Sidartha do Herman Hesse, já me falou dele algumas vezes). Estamos a conversar sobre o
main event do dia. Lá aproveita para me dizer que gostou do
post que escrevi (como gosta de todos) e que não percebe como é que eu tenho coragem de o publicar, de mostrar ao mundo a minha intimidade
tão íntima (redundância minha). Respondo que o mundo a que ela se refere é muito pequenino, são poucos os que me lêem.
Pergunta-me se não tenho vergonha de que se saiba deste capítulo da minha história. Digo-lhe que, dos poucos que me lêem, são ainda menos os que sabem quem sou (para estes tenho um metro e setenta e cinco, sou loura, e se se cruzassem comigo na rua perguntar-me-iam se sou a irmã mais nova da Irina Shyak e como é possível ser ainda mais bonita).
E sossego-a dizendo ainda que posso retirar o texto do blog se me sentir desconfortável, que logo decido, aquilo de ter o fígado de fora está a toldar-me o julgamento (aliás viu-se).
Mas depois de uma noite mal dormida acordei para uma caixa de comentários que me fez pensar que fiz bem em escrevê-lo: acordei para abraços e beijinhos em jeito de palavras e alguns sorrisos, forma habitual de me despedir quando deixo comentários em blog alheio.
Acordei para mais um dia de escolhas e na manhã do qual novamente decidi ver o copo meio cheio. Talvez morar num sítio onde só chove meia dúzia de dias por ano e o céu é habitualmente de um azul inspirador facilite a escolha de deixar o sol brilhar e iluminar até os recônditos mais escuros da minha existência.
Nem de propósito, há dias contava-me este poço de sabedoria (e de
mails manhosos) que é mamãe de ter recebido um
forward com a história do Pepe, um senhor que todos os dias escolhia estar de bom humor, aprender com os desaires, e ver o lado positivo da vida. Tendo levado uns balázios e estando à espera de ser operado, respondeu à pergunta habitual das alergias sê-lo às balas e pediu com a força que pôde que o operassem como estando vivo ainda e não já morto. Este tipo de historietas é habitualmente acompanhado de paisagens, ora naturais, ora
man made, onde invariavelmente há árvores solitárias, casas à beira de lagos, e uma qualquer viela de cidade europeia antiga e a do Pepe não desiludiu (mas quem raio se dedica a fazer destas coisas!?).
Eu há muito tempo que decidi ser uma Pepe em, para aqueles que não me conhecem, optimista e feliz versão irmã mais nova e mais bonita da Irina (para os que conhecem hey, é assim que eu me imagino todos os dias quando acordo e são os espelhos que estão mal calibrados). Apercebi-me que gosto mais de viver assim. Não sou menos cínica ou sarcástica bem no cá íntimo, mas não deixo que isso leve a melhor (só quando durmo pouco e estou afectada da hormona, aí o filtro vira fino e esburacado, coisa que até me dá algum gozo porque eu costumo ser uma paz d'alma e isso sempre traz algum elemento de espontaneidade e surpresa a uma existência mais pacífica e, porque não dizê-lo, algo monótona).
Este texto serve portanto de agradecimento pelas vossas palavras meigas e sábias. E para vos dizer que só pelo vosso
feedback neste e noutros momentos mais conturbados, não esqueço jamais o quão mal me senti por
ter batido na minha filha e no bem que me fez exorcizá-lo e receber palavras de bom exemplo -- ainda te estou a dever um mail, Helena!, vale a pena ter este blog. Perdoem-me pela pieguice, mas não resisto a dizer-vos que sou mais feliz por vos ter desse lado, ao meu lado ainda que ciberneticamente. Sou uma gaja de sorte, pá, a sério que sou (ainda por cima em versão mais nova e -- pasme-se!!! -- mais bonita da Irina!).
Um sorriso já com as peças todas encaixadas. Amanhã nem me vou lembrar que saíram do sítio!