Amigos, em primeiro lugar fechai a boca e substituí esse ar de espanto por outro de curiosidade, que vos assenta bem melhor e dá a vossos semblantes um ar menos chocado, que está já
démodé de tanto que se vê pelas ruas.
Comecemos então pelo princípio, que é por onde tudo deve começar, ordeira e clamarente, pois que de argumentos turvos andamos todos saturados. Até à ponta dos cabelos ou até à medula, como melhor vos aprouver. Também podem ser as duas, que eu cá não me quero imiscuir na gestão da vossa saciedade, sem dúvida sabeis o que é melhor para vossas mercês.
Deixando de lado a massa da
pizza, atentemos aos pormenores que transformam o acepipe numa
pizza aux champignon, numa
havaiana, ou na versão que é a preferida cá em casa, numa
cowboy. Atentemos pois aos ingredientes que levam em cima.
Mas, e pedindo-vos todavia alguma calma no andor, e até alguma paciência para com esta com vossa amiga, que tomou há pouco o pequeno-almoço e por isso não sente ainda quaisquer vestígios de fome (mas dai-me aí uns dez minutos), chamo a vossa atenção para o ingrediente habitual e habitualmente ignorado aquando da decisão de qual escolher (na dúvida, havaiana ou cowboy, dependendo do frio que faz lá fora): o molho de tomate.
Concordais que o tomate é da família das plantas? Concordais que, de certo modo, a fruta deve fazer parte da fatia, não da pizza!, mas da roda alimentar? Ora então ignorando o piqueno detalhe de o tomate ser na verdade um fruto e não
exactamente um vegetal, e assumindo que sendo primo é já motivo bastante para que lhe leve com o nome, ficai então sabendo que, empregando aquela propriedade mágica que é a transitividade, e agora devagar para não doer muito:
Se o tomate é um vegetal (não é, não é, é um fruto, mas adiante)
E se a pizza tem tomate (não tem, não tem, é molho de tomate!!!),
Então a pizza é um vegetal (WTF!?!)
Se achais esta perpectiva absurda, dizer-vos-ei que não é minha, pois que até sei que o tomate é um fruto. Esta é, todavia, a perpectiva do Congresso norte americano.
Ainda que a ideia completamente idiota de classificar o molho de tomate (ketchup) como vegetal em vez de condimento tenha sido ridicularizada na primeira vez que apareceu, durante os longínquos anos oitenta, a verdade é que a alimentação subsidiada nas escolas públicas americanas reflecte a perspectiva de que na verdade a pizza é um vegetal e pode (e deve) ser servida regularmente nas cantinas, ou não devessem as crianças ter a liberdade de escolher o que devem almoçar (perdão, WTF?).
Apesar de vários esforços da administração Obama no sentido de tornar os almoços nas escolas públicas mais saudáveis, e o mais saudáveis quer dizer limitando a quantidade de batatas e de sódio na alimentação dos putos, o Congresso vem imediatamente dizer que não, que isso encarece os já tão emagrecidos orçamentos escolares (olha, não é só em Portugal!), que isso é uma trabalheira para a gestão escolar dada a burocracia implicada e, o meu preferido, é uma violação da liberdade de escolha das criancinhas, coitadinhas, que devem poder comer batatas fritas e pizza todos os dias ao almoço se bem lhes aprouver.
Quem diria, o capitão no Wall-E tinha razão:
Earth is amazing! These are called "farms". Humans would put seeds in
the ground, pour water on them, and they grow food - like, pizza!
Estamos perdidos...